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[i]

 

No presente trabalho faremos alusão à interpretação heideggeriano do conceito de pseudo. Isso implica em pensar a essência do pseudo como sendo diferente do “falso”. A essência do pseudo está relacionado e determinado pela Alethéia. O pseudo envolve dissimulação no sentido de encobrir e desencobrir. Parece-nos, portanto, que existe uma dupla origem do sentido do pseudônimo (pseudo-nimo) para Kierkegaard, a saber: o sentido grego de pseudo e o sentido cristão do modo de Deus se revelar. Portanto tanto em Kierkegaard quanto em Heidegger a questão da verdade está vinculada à não-verdade.

 

 

 

 Marcos Érico de Araújo Silva[ii]

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INTRODUÇÃO

 

Fazer uma possível relação entre Kierkegaard e Heidegger a partir do problema da verdade e da não-verdade é apontar, acenar para a questão que os ocupavam e os pre-ocupavam na filosofia. Não daremos um tratamento temático exaustivo, quer dizer, enriquecendo-o com corroborações de passagens ao longo da produção filosófica dos dois filósofos. Tomaremos o caminho de mostrar a lógica interna da relação entre verdade e não-verdade, nos dois filósofos, como sendo um caminho possível para visualizarmos o caráter filosófico, ou o elemento da filosofia, em que Kierkegaard e Heidegger se moviam.

A essência da verdade para Kierkegaard e Heidegger soa e ressoa diferente do modo como a Tradição diz e pensa “essência”. A “essência” é sempre um “em si” que a Tradição estabelece fora da finitude humana. Heidegger e Kierkegaard estabelecem o problema da verdade no modo de ser do homem, isto é, do compreender do homem. A verdade não pode ser entendida como algo “em si”, como faz a Tradição, a metafísica, isto é, como algo fora da realidade. Esse procedimento da Tradição, essa busca por um princípio teorético, isto é, fora do real é uma falsificação do princípio, é uma entificação do Ser. A fonte, a origem, a essência do Ser é o não-ser, é a aparência em que o Ser se manifesta. Isso é o desencobrimento (Alethéia). Verdade, em Heidegger, é a aparência, mas sem a dualidade cultivada por Parmênides, Platão etc. A essência da verdade, do Todo da realidade não será assegurada por uma adequação ou conformidade com algo “em si”, fora da realidade[iii].

Em Kierkegaard e Heidegger a essência da verdade aponta para a aparência, isto é, é aquilo que vemos, que nos relacionamos. Portanto, a essência da verdade tem uma relação privilegiada, intrínseca com o Devir, com a mudança, a aparência. A filosofia, ao contrário das ciências, precisa dizer, definir precisamente o Todo (e não fragmento!) do Devir. A filosofia, pois, não diz ou se limita a um aspecto (eidos) do real, mas é um ver o todo do real. Ter essa pretensão significa buscar uma definição que não se limita a aspectos do real, mas deve buscar algo como o Ser que permanece na mudança incessante. Mas esse Ser não está desvinculado, ou des-locado do Devir. Ele é no devir. Então, o Ser do Devir é o Ser, a verdade da filosofia. Eis a grande dificuldade da Tradição: como é preciso dizer o Ser do Devir, a Tradição sempre pensa o Ser e seu oposto, nunca chegando a pensar o Devir como Ser.

Pensar o devir como Ser é pôr-se no movimento do real, das coisas, do sendo e, assim, apreender no sendo, no devir o Ser, isto é, o poder-ser do Ser enquanto Devir. Falar do poder-ser, da possibilidade de poder é entrar nas disposições fundamentais da filosofia, por exemplo, a angústia[iv], própria do Dasein ou do Indivíduo. O Dasein é o único capaz de colocar a questão, de formular o problema. Entender o homem nessa dimensão originária, e não em sua dimensão biológica, é colocar o sentido de começo em filosofia. É um começo que nunca começa porque desde sempre já começou. A essência da verdade brota, viceja daqui enquanto sendo, devir. Esse poder de compreender ou colocar a questão, própria do homem, não pode ser entendido como um dado, um princípio (razão, metafísica), mas como devir, isto é, o sendo.

 

 A QUESTÃO DA VERDADE E NÃO-VERDADE EM HEIDEGGER

 

O tratamento temático da questão da verdade, por Heidegger, é original por vincular a não-verdade à essência da verdade. A tradição pensa a não-verdade apenas, e sobretudo, como a falsificação, como o oposto da verdade. O que apoditicamente não é verdadeiro é necessariamente o falso, o erro. Esse modelo matemático de enxergar a realidade, de pensar o real foi seguido pela filosofia, principalmente na modernidade, como um more geometrico demonstratœ. Toda a história da filosofia é a história da de-cadência, a perda da cadência, da afinação (Stimmung) com a questão originária do Ser. Sem esta afinação ou atmosfera apropriada a questão do Ser perde seu sentido originário, afirmando-se, porém, com um sentido deslocado de sua origem. Essa deslocação do sentido do ser, esse estar des-locado, esse estar “por fora” de uma atmosfera adequada ou de um estado de ânimo (Stimmung) apropriado falsifica a verdade do ser.

A história da filosofia enquanto história da de-cadência ou esquecimento do sentido de Ser se realiza graças a pro-vidência dos filósofos, na tradição, ao estabelecer e consolidar de forma cada vez mais sofistificada (o ver mais radical) o sentido do Sentido de Ser, quer dizer, a entificação do Ser num Princípio metafísico. A meta-fisica é precisamente isso. Esse querer ir mais além, meta-física, é um sair do próprio elemento da filosofia, e, assim, é instaurar a decadência. A essência da verdade passa ser um elemento des-locado de sua origem. Heidegger designa essa deslocação da verdade de sua essência originária de adequação ou correspondência. Essa ação que tira (des-loca-ação) do locus originário a essência da verdade e a promove num Princípio, saindo da própria coisa e criando, como substituto, a proposição, o juízo falseia o Princípio originário.

Esse Princípio originário na verdade não é um princípio no sentido metafísico tradicional. Não é um Princípio que está fora da coisa, não pretende ir além dela, mas é um voltar-se para a própria coisa. Esse Princípio, pois, deve ser um Pré-princípio, ou para usar um termo técnico do jovem Heidegger (criado em 1919) é um Princípio que não é princípio, quer dizer, de natureza teorética, a saber: pré-teorético. Já aqui, em 1919, o elemento próprio da filosofia, o que faculta a condição de possibilidade de qualquer Princípio teorético metafísico existir é o pré-teorético. Com efeito, o pré-teorético ganhará várias nomenclaturas ao longo da produção heideggeriana como o sentido de Ser, a verdade do ser, o enigmático, o mistério que se capta apenas na superação da metafísica.

Um pensar que pensa a verdade do Ser tem que estar ou deve perseguir a superação da metafísica. Na superação da metafísica a história da filosofia se “recupera”, é “corrigida”, é retomada a cadência correspondendo originariamente àquela afinação com a verdade originária e não mais a da proposição. O homem é, pois, a via de acesso, o locus apropriado que não des-loca a verdade originária, quer dizer, a verdade da essência da verdade, para um “em si”, um ir mais além, fora do homem. A verdade está locada na finitude humana, é um “estar por dentro do assunto”, da própria coisa.

A tradição julga o real, a realidade a partir de um determinado Princípio metafísico: o que não é real é aparência (antiguidade), o que não é graça é pecado (Idade Média), o que não é verdadeiro é falso (modernidade). Mas cumpre investigar o que é essa aparência, esse pecado, esse falso que surge no real. Ora, se faz parte, se esses elementos constituem a tessitura complexa do todo da realidade cabe a filosofia explicar.

Heidegger tem o mérito de enfrentar o problema e propor uma solução mais positiva que a tradição. Na verdade Heidegger vai no encalço e persegue o que já foi apontado e desenvolvido por Nietzsche e Kierkegaard[v]. A não-verdade para Heidegger não é aquela falsificação da verdade originária que a Tradição designou de verdade como adequação ou correspondência. A não-verdade tem um sentido mais positivo: é o fundamento sem fundo (pré-teorético!) da própria possibilidade da correspondência. Esse sentido mais positivado da não-verdade, isto é, que não é mera oposição, o contrário da verdade, decorre do próprio conceito grego de verdade como Alethéia. Mas apenas Kierkehgaard, depois dos gregos, e, portanto, antes de Heidegger, resgatou no seu modo de fazer filosofia através de sua maiêutica ou pseudo-nimia.

 

A ESSÊNCIA DO PSEUDO NOS GREGOS E EM HEIDEGGER E DA PSEUDO-NÍMIA EM KIERKEGAARD

 

Aqui iremos entrelaçar os dois filósofos no eixo que os uniram para cada qual produzir sua própria filosofia. Mas esse eixo comum é a própria questão da filosofia que a partir de Kierkegaard e Heidegger compreende-se como a questão da verdade e não-verdade relacionada ao Ser e Devir, isto é, ao sendo, ao Ser enquanto devir, ao Ser no e do devir. Iremos tão somente acenar, mas nesse aceno encontra-se toda autêntica filosofia. A filosofia preocupa-se em dizer isso, em pensar sobre e a partir disso. A filosofia nasce desse espanto e tenta explicar a razão desse espanto. Em sendo assim, a filosofia não pode sair do espanto, mas deve permanecer e perseverar nessa disposição afetiva. Portanto, pensar e viver desde o começo sem começo, quer dizer, desde a gênese do começo, fala de arché, de princípio, mas de princípio que não é princípio, mas princípio do princípio, isto é, pré-princípio, pré-teorético. Por isso o projeto de juventude de Heidegger culmina em Ser e Tempo com a analítica existencial do Dasein. Analisar isso, e somente isso, que nos dá acesso ao teorético, ao princípio, à verdade. Mas isso é do âmbito do pré-teorético, não é de natureza teorética. Por essa razão Heidegger ao falar de filosofia[vi], de como ser intro-duzido na filosofia não conduzirá a um princípio abstrato, mas falará de disposições fundamentais que darão a possibilidade de criar e aceder a este ou aquele princípio.

Ora, Kierkegaard (1813-1855) já exigia isso da filosofia quando falava de angústia, possibilidade de poder, instante, repetição etc. E foi precisamente para salvar a filosofia dela mesma, assegurando o seu verdadeiro começo, que ele trabalha com essas disposições afetivas, fundamentais.

As obras pseudonímicas tentavam dar uma “sacolejada” servindo-se da ironia socrática despertando o leitor para aquelas disposições afetivas apropriadas, de que exige posteriormente Heidegger, para ser introduzido na filosofia.

Mas o que isso tem haver com o que dizíamos sobre a verdade e não verdade em Heidegger? A relação se mostra evidente se relacionarmos com o conceito grego de verdade. Então perceberemos uma possível relação entre Kierkegaard e Heidegger e acompanharemos que ambos estão no elemento da filosofia. Em Platão: o sofista, Heidegger esclarece o conceito de verdade de modo a percebermos que para o grego falar em verdade implica em pensar sobre a não-verdade. Isso a Tradição obscureceu de tal forma que falar hoje de não-verdade soa, negativamente, a sinônimo de falsidade. Mas o conceito grego de verdade inclui a verdade e a não-verdade. Vejamos:

 

Os gregos têm uma expressão característica para a verdade:  ὰlἡqeia(verdade – desvelamento). O aé um a-privativo. Eles possuem, portanto, uma expressão negativa para uma coisa que compreendemos positivamente. “Verdade” tem para os gregos o mesmo significado negativo que, em alemão, por exemplo, ‘Unvollkommenheit” (imperfeição). Essa expressão não é pura e simplesmente negativa, mas negativa de uma maneira específica [...] Nos gregos, a verdade, para nós o positivo, é expressa negativamente como ὰlἡqeia(verdade – desvelamento), enquanto a falsidade, para nós o negativo é expressa positivamente como yeudoς (falso). ὰlἡqeiasignifica: não estar mais velado, estar descoberto. Essa expressão privativa indica que os gregos tinham uma compreensão de que o não encobrimento do mundo precisa ser primeiro conquistado, que ele é algo que não se acha de início e na maioria das vezes disponível (HEIDEGGER, 2012, p. 15-16, negrito nosso).

 

 

Portanto, para o grego, e em grego, verdade é constituída de um α privativo em que acentua a negatividade da verdade. Para a Tradição a verdade é o positivo sem poder ser de outra forma. A verdade moderna, cartesiana, transformou-se em certitudo, certeza, isto é, num princípio teorético certum e verum, certo e verdadeiro. A verdade sendo a evidência de algo por ser clara e distinta é sem confusão e sem conflito. Não há espaço para as incertezas e querelas. Não precisa ser conquistada. Não tem luta, saga. A verdade é luz, resplandece e transparece. Mas de onde provém a luz da verdade? O que possibilita a luz manifestar-se e tornar-se clara e distinta? A clareira, isto é, um princípio do princípio que, na verdade e em verdade, é um pré-princípio, é o começo sem começo, gênese do começo, isto é, salto, de-cisão. Isso a Tradição não responde e não pode responder. Só a questão da não-verdade vinculada à essência da verdade poderá indicar a conquista, a luta da e pela verdade. Não é essa luta de e para apropriar-se da verdade que vemos se desenrolar na vida e no modo de pensar dos pseudônimos de Kierkegaard?

Por isso Heidegger na obra Parmênides ao falar da Alethéia, de desvelamento, e do pseudo, da não-verdade, do aspecto negativo observa que o pseudo não é o falso apenas. Ele está determinado ontologicamente para a verdade (esse é o sentido do α privativo!). É extremamente significativo ler o registro de Heidegger exatamente nesse ponto, como que para ilustrar o conceito de verdade e não-verdade, recorrendo ao recurso dos pseudônimos por parte de Kierkegaard. Nisso Heidegger parece mostrar que, de fato, ele viu o filosófico em Kierkegaard e parece validar com razão sua crítica ao despertar da literatura kierkegaardiana, em sua época, por ser algo desvinculado da essência da filosofia kierkegaardiana. No Parmênides Heidegger escreve:

 

Naturalmente reconhecemos, numa rápida reflexão, que o que chamamos assim direta e “massivamente” o “falso” traz em sua essência uma riqueza especial [...]. O genuíno “pseudônimo”, ao contrário do nome do impostor,, mostra algo do “verdadeiro ser” de quem o traz. O “pseudônimo” também esconde, mas de tal maneira, que, simultaneamente, manifesta o recôndito, isto é, a essência oculta do autor e sua tarefa literária. O genuíno pseudônimo não deve fazer o autor passar, simplesmente, por não conhecido; ele deve, antes, chamar a atenção para sua essência escondida. Por intermédio de seu pseudônimo, o autor diz até mais de si do que se ele usasse seu nome “correto”. Os pseudônimos de Kierkegaard (“João de Silentio”, “João Clímacus” e “Anticlímacus”) manifestam esta essência do pseudônimo e, consequentemente, a essência de yeudoς. No yeudoς vige um encobrir que, simultaneamente, desvela. O “falso” ouro parece ouro, mostra-se como ouro e, na medida em que se mostra assim — embora somente ao fazer assim — encobre o que ele é em verdade: não-ouro. A essência do yeudoς encontra sua determinação a partir do domínio de encobrir, desvelar e deixar aparecer (HEIDEGGER, 2008, p. 60-61).

 

A criação dos pseudônimos em boa parte da produção kierkegaardiana segue esse impulso da investigação da verdade. O recurso aos pseudônimos não é uma mera ocultação de si, ou não segue apenas um espírito do tempo. Tem um sentido filosófico por trás e por força dos pseudônimos. É o método da comunicação indireta ou maieûtica kierkegaardiana. Isso significa que o recurso aos pseudônimos, em Kierkegaard, está a serviço de um plano. Os próprios pseudônimos, em suas obras, revelam e, ao mesmo tempo, escondem isso. Kierkegaard escreve uma obra, Ponto de vista de minha obra de escritor, publicada postumamente, para explicar precisamente isso, quer dizer, para marcar e demarcar a necessidade da utilização dos pseudônimos.

Em Ser e tempo Heidegger com o conceito de das Man, o “eles”, o “nós”, “o agente”, isto é, a massificação e alienação de si que se dá no mundo está muito próximo do que Kierkegaard descreve como existência estética, isto é, um modo de ser possível da existência humana. Isso é o fato que Kierkegaard constata, no problema da verdade, que o motiva a criar os pseudônimos para despertar o homem dessa existência estética conduzindo-o a autenticidade, a conquistar na luta da apropriação da verdade o si-mesmo, o eu. Logo após a defesa de sua tese de doutorado em filosofia: O conceito de ironia constantemente referida a Sócrates, numa obra inacabada intitulada (ironicamente) de De ominibus dubitandus est (É preciso duvidar de tudo) Kierkegaard sob o pseudônimo de João Clímacus escreve:

 

Como surge o problema da verdade? Pela não-verdade; pois no instante em que pergunto sobre a verdade, já perguntei sobre a não-verdade. Na pergunta pela verdade, a consciência é posta em relação a outra coisa, e o que torna possível essa relação é a não-verdade (KIERKEGAARD, 2003, p. 107).

 

            Em virtude do problema da verdade e da não-verdade é que Kierkegaard cria conscientemente um Projeto filosófico de obras pseudonímicas e obras veronímicas. Tudo isso foi determinado pelo problema da verdade numa percepção intuitiva que a Tradição não chegou a formular.

            A essência de pseudo não é o falso apenas, mas está determinado pela verdade enquanto Alethéia. O pseudo enquanto e como dis-simulação na medida em que simula um modo possível de existência ao mesmo tempo desencobre quanto encobre esse mesmo modo de existência. O convite para a leitura, para entrar na lógica de um modo possível de existência pode pro-vocar um choque, ou um tropeçar numa pedra de tropeço. Isso faz parte da essência do pseudo e, portanto, é o que pro-move a lógica e psicologia de uma obra pseudônímica. É a experiência e o experimentar o paradoxo. É o produzir, criar para o leitor e no leitor uma disposição afetiva (Stemning, Stimmung) própria e apropriada para se apropriar da verdade. O filósofo, pois, é esse que “saca”, compreende, deixando-se ser tomado e afetado por este afeto, esta graça que o dispõe e o põe, o joga na dis-posição afetiva da luta e labuta da verdade. É um posicionar-se diante da verdade apropriando-se dela! Isso é o começo sem começo, a arché, a gênese do começo, o pré-teorético, o salto, a de-cisão. É precisamente este elemento que me lança no empenho e desempenho de conquistar meu si-mesmo na coragem de fazer cisões, rupturas com as infinitas possibilidades que se apresentam como modos possíveis e distintos de existência, de ser-no-mundo. Tudo isso fala das determinações intermediárias (Mellembestemmelser) que todo pseudo-nimo kierkegaardiano pro-voca e pro-move. Esse é o sentido de começo em filosofia e, por isso mesmo, vinculado as Stemning, Stimmung. Os pseudo-nimos Vigilius Haufniensis e Johhanes Clímacus diz explicitamente em O conceito de angústia e no Pós escrito às migalhas filosóficas, respectivamente, este último traduzido recentemente por Álvaro Valls,que é justamente o fato de não partir ou desenvolver as determinações intermediárias que pecam os filósofos, quer dizer, caindo em especulações abstratas sobre o ser e a existência individual carecendo, pois, de uma análise psicológica[vii].

O pseudo não é nem o falso nem a verdade, mas no mostrar e no retrair à verdade ele possibilita, melhor, dá a possibilidade do escândalo. Isto é, permite acolher e recolher o paradoxo como paradoxo na medida em que se apropria da verdade. Essa apropriação da verdade é a passagem ou transição dos estádios no caminho da vida (estético, ético e religioso)[viii]. Neste acolhimento apropriativo da verdade acontece o recolhimento à interioridade (não instrospecção solipsista!), quer dizer, ocorre, acontece, nasce a subjetividade do indivíduo.

Um outro sentido para a utilização dos pseudo-nimos vamos apenas acenar, pois tentamos dar essa ênfase ao filosófico. O modo como o Deus cristão se revela na história parece conter esse sentido grego de mostrar-se e esconder-se. O próprio Cristo assumindo a figura do servo, como paradoxo absoluto, desenvolvido nas Migalhas filosóficas por Johannes Clímacus, parece indicar esse modus vivendi do cristíco. O uso pseudo-nímico poderia ter essa inspiração do modo de ser cristíco. As pará-bolas contadas por Jesus, que parece e aparece como apenas um homem, embora seja Deus, tem esse sentido do despertar e intensificar uma disposição afetiva (Stemning, Stimmung) no ouvinte. Sendo tomado e afetado por esta disposição o ouvinte torna-se uma nova criatura, apropria-se do crístico.

Para finalizar esse aceno, essa indicação, esse apontar para algo que complementa o aspecto filosófico do pseudo-nimo desejamos concluir com uma citação do Frei Hermógenes Harada, homenageando o professor Gilvan Fogel, por sintetizar e compendiar a modo de concentração e não de dispersão erudita esse sentido de parábola que parece-nos semelhante ao modo e in-tensão de Kierkegaard na criação da produção pseudonímicas:

 

Para-bolaéo que se lança bem rente, ao lado, ao longo de, e quase atinge, mas passa raspando a quem se quer chamar atenção. É, pois, dizer sem dizer o que se gostaria de dizer diretamente, para não constranger a alma seca daquele a quem homenageamos, com respeito, estima e gratidão (HARADA apud MEES; PIZZOLANTE, 2008, p. 22).

 

 

Referências

 

HEIDEGGER, Martin. A questão fundamental da filosofia. In: Ser e verdade. Tradução de Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2007.

 

______ . Platão: o sofista. Tradução de Marco Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

 

______ . Parmênides. Tradução de Sérgio Mário Wrublevski. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2008.

 

KIERKEGAARD, Søren. Johannes Climacus ou É preciso duvidar de tudo. Tradução de Sílvia Saviano Sampaio e Álvaro Luiz Montenegro Valls. Prefácios e notas de Jacques Lafarge. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

______ . O conceito de angústia. Tradução de Álvaro Luiz Montenegro Valls. Petrópolis: Vozes, 2010.

 

______ . Ponto de vista explicativo da minha obra de escritor. Lisboa: Edições 70, 2002.

 

______ . O conceito de ironia:constantemente referido a Sócrates. Apresentação e Tradução de Álvaro Luiz Montenegro Valls. 2ª ed. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2005.

 

______ . Pós-escrito às migalhas filosóficas. Vol 1. Tradução de Álvaro Luiz Montenegro Valls e Marília Murta de Almeida. Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2013.

 

MEES, Leonardo; PIZZOLANTE, Romulo (Orgs). O presente do filósofo: homenagem a Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.

 

 

[i] Trabalho completo publicado (p. 385-396) nos Anais da XIII Jornada Internacional de Estudos de Kierkegaard (SOBRESKI). Disponível em: http://periodicos.uesb.br/index.php/jieks/issue/view/129 para ir direto ao artigo: http://periodicos.uesb.br/index.php/jieks/article/view/2166/pdf_27

[ii] Doutorando em Filosofia na UFPB-UFRN-UFPE, Bolsista CAPES.

[iii] A não-verdade, para a Tradição, é a não-conformidade, a não-adequação, portanto é o falso, o pseudo, a negação da verdade. Em Kierkegaard e Heidegger será positivada a questão da não-verdade por fazer parte da tessitura do real. A Tradição pensa a verdade como adequação, conformidade, mas não percebe que a base, o fundamento, isto é, o que possibilita falas da adequação é o desvelamento. O desvelamento, pois, é mais originário. Mas só é possível pensar isto num esforço do pensar que pensa no interior da superação da metafísica.

[iv] Aqui aparece o conceito de angústia precisamente para explicar esse fundo ontológico do e no homem que, antes, de Heidegger, em 1844, Vigilius Haufniensis/Kierkegaard define de forma ímpar: “a angústia é a realidade da liberdade como possibilidade antes da possibilidade” (KIERKEGAARD, 2010, p. 45).

[v] Em A questão fundamental da filosofia Heidegger deixa escapar a fonte dos pensadores essenciais que enlaçam criticamente a questão da metafísica nos lançando na atmosfera da superação da metafísica: “Qual será esta posição capital em que todas as forças essenciais da história do espírito ocidental se recolhem num grande bloco? – É a filosofia de Hegel. Para trás é a completude da história da filosofia ocidental; e, ao mesmo tempo, é, para frente, tanto direta quanto indiretamente, o ponto de arranque para a oposição dos grandes pregadores e desbravadores do século XIX: Kierkegaard e Nietzsche. [...] Hegel, para trás, significa completude e, para frente, saída para Kierkegaard e Nietzsche” (HEIDEGGER, 2007, p. 30.32, grifo do autor).

[vi] Em inúmeras obras, sobretudo, em Que é isto – a filosofia?, e em Introdução à filosofia.

[vii] Cf. KIERKEGAARD, 2010, p. 43, nota 94 e KIERKEGAARD, 2013, p 199.

[viii] Seria possível fazer uma relação com a tradição mística cristã sem desfigurar o pensamento kierkegaardiano com as vias purgativa, iluminativa e unitiva?